segunda-feira, 25 de janeiro de 2010
Sobre o acaso
Você está certo quando diz que não consigo dormir sem ouvir o barulho do ventilador. Mas o silêncio me assusta. Parece besteira, espero que entenda. Feche a janela e as portas. Tenho medo do que pode vir à noite por dentro da ventania. A fumaça e o barulho das balas que mordem os pecadores. Deixe toda a maldade do mundo lá fora e aqui dentro estaremos protegidos. É claro que não sou uma criança. Minha inocência se perdeu há muito antes do meu corpo dar o primeiro suspiro da puberdade. Mas agora nesse lugar tudo é tão doce, o colchão é tão macio. E os seus braços que me confortam de nada me lembram os outros que me envolveram as costas. É incrível como o coração tem o poder de esquecer aquilo que um dia foi presente. Porém disso não tenho medo. O momento é agora. Estamos juntos e o meu celular está desligado. Não interessa quem me ligue. Hoje não tenho família, nem casa, nem destino. O meu mundo é aqui nesse quarto. Não me importa o que somos ou quem somos, o que importa são as horas que pagamos. E quando o dia amanhecer, e sairmos sob a última sombra da noite, quero andar ao seu lado. Anote o meu número e me ligue antes da minha saída noturna. Se eu pudesse me aposentar antes de murchar a minha juventude, faria isso agora. E venderia esse carro para te roubar das esquinas. Eu não ligo para as notas. Seria egoísmo meu cobrar por nem que seja um metro a alguém que me levou as estrelas. Talvez adeus, ou até logo, ou, por favor, meu bom Deus, até as 9:30... Quando eu passar pelos faróis e bater os olhos nos teus novamente.
quarta-feira, 23 de dezembro de 2009
Sobre o tempo
Eram poucas as certezas que eu tinha. Naquele tempo eu não precisava pensar. Porque se eu divagasse, algum outro tomaria o meu lugar... Na minha vida noturna, nos corações das meninas, nos ombros dos meus companheiros. Eu era um misto de solidão e festa, de melancolia e insensibilidade. E a vida era tão fácil. Nunca dizia adeus, cantava músicas e dançava no chuveiro sem parecer ridículo. Ah tempos bons... Há tempos? Talvez eu não veja. Os olhos caíram assim como a carne que samba quando eu caminho. Antes era tudo tão doce. E agora a vida parece ser mais amarga. Os dias soam como meras rotinas sucessivas. E lá pelos vinte anos eu contava semanas, vivia em função das horas, dos segundos para poder correr por aí. Fugir da aula e agarrar uma garrafa de cerveja, passear com ela e acordar com meia dúzia de rapazes que a veneravam. Passado triste. Só triste porque lembro agora. E bebo em casa na penumbra que oscila entre a morte no meu olhar e o cansaço da minha voz cantando Chico. “Eis o malandro na praça outra vez...” Mas dessa vez caído num canto, sem mocinhas fotografando a minha ressaca e rindo da minha estupidez. O pior agora é que quando eu digo: “Garçom, me dá mais uma!” Ele não sorri pra mim. Porque os sorrisos estão para os jovens que pedem bebida na mesa ao lado. E não para o tempo que passou.
segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
A verdade sobre o amor
A verdade? Que verdade? O amor é feito de perguntas. A gente desapega dos delírios do prazer e se entrega aos sentimentos. É a alma negando a carne. E a carne escolhendo alguém. Parece complicado né? Pois então baby, deixe que eu te explique. Senta aqui do meu lado e se sentir o mesmo que eu, vai aprender rapidinho. O amor é assim. É como levar um choque...Que só você me dá enquanto todas as outras pessoas são como fios desligados. E o amor, querido? Descobriu? Não é tão fácil assim. Não é como ler um livro e tirar conclusões. Para entender o amor é preciso ler as mesmas coisas todos os dias. E se tiver a mesma sensação de prazer, se não se entediar com as mesmas palavras. Então você ama. E não me diga que existe verdade no amor. Ele é confuso e filosófico. Quando você está perto de entender, algo te mostra que você não entendeu nada. É como ouvir uma música em outro idioma. Ela é linda. E é isso que interessa, mesmo que você não entenda o que ela quer dizer. Ela pode marcar uma fase da vida ou pode ser a trilha sonora dela. Pode fazer você ver o quão ruim era o seu gosto quando a ouviu e amou. Ou pode jamais envelhecer. E mesmo que todos a achem velha e ridícula. Você vai continuar amando. O amor não está nas verdades, mas nas indagações. Se você não tem resposta para nenhuma pergunta e tudo o que tem a responder é “porque sim”. Então encontrou a essência. E isso já basta.
terça-feira, 17 de novembro de 2009
Negação
E quando acontecer
que seja rápido
que eu não veja
que eu não ouça
que eu esqueça
e que apague
E quando me contarem
que eu não pense
que eu não chore
e que eu durma
E quando for embora
que não me diga
que não se despeça
que não me beije
que não me olhe
que não me escreva
E quando for mentira
que eu não saiba
que eu não acorde
que eu fuja
E quando eu lembrar
Que eu não sinta
Que eu não te ligue
E que não te perdoe
E quando houver alguém
Que eu não compare
Que não me faltes
Que eu não assuma para mim mesma o fato da minha negação.
que seja rápido
que eu não veja
que eu não ouça
que eu esqueça
e que apague
E quando me contarem
que eu não pense
que eu não chore
e que eu durma
E quando for embora
que não me diga
que não se despeça
que não me beije
que não me olhe
que não me escreva
E quando for mentira
que eu não saiba
que eu não acorde
que eu fuja
E quando eu lembrar
Que eu não sinta
Que eu não te ligue
E que não te perdoe
E quando houver alguém
Que eu não compare
Que não me faltes
Que eu não assuma para mim mesma o fato da minha negação.
sábado, 7 de novembro de 2009
Amar é como ser criança outra vez. A gente se magoa por pouco, e pode chorar por um simples grito zangado. A gente treme de timidez e fecha os olhos de vergonha. A gente briga e faz as pases minutinhos depois como se nada tivesse acontecido. A gente beija o telefone em toda despedida. A gente não se conforma quando recebe um não e faz pirraça. E adora ser ninado pelos braços de quem ama. A gente não ouve os conselhos de ninguém, porque é tudo baboseira. A gente arruma as coisas e finge que vai embora só pra se sentir mais importante se for impedido. A gente gosta de chamar atenção de quem ama e cria raiva dos amigos que roubam ela da gente. A gente se torna inconseqüente e dá à vida a coragem de tentar. A gente volta a acreditar nas pessoas, e até se encanta pelo olhar de um estranho. Se a gente cair, se machucar e nos disseram para tomar cuidado na próxima vez. Não adianta, a gente vai pular de novo.
sábado, 8 de agosto de 2009
Poesia andarilha
Eu andei pelas ruas, pelas cidades e por alguns estados. Pela solidão, pelos sorrisos de alguns, pelas lágrimas de outros. Andei pelo ódio e pelo amor. Andei por entre as amizades e as decepções. Andei pela fé e pelo perdão. Andei por volta dos meus inimigos e andei mais rápido que eles a ponto de não me alcançarem. Andei pensando, andei sonhando, andei falando sozinho, andei dormindo nas aulas mais importantes e andei me ferrando com os meus devanios. Andei amando, andei beijando alguém e andei meio desligado ultimamente. Andei de mau humor, andei feliz da vida. Andei até mesmo quando tinha que ficar parado. Andei com câimbras, mas andei. Andei mesmo sem forças nas pernas. Andei bêbado cruzando os passos e andei numa linha reta durante anos. Andei desviando do meu caminho e andei errando. Andei de costas sem saber. Andei de noite, andei de dia. Andei somente por andar. E andei com algum destino traçado. Eu andei, andei e andei e ainda continuo andando até não poder andar mais.
segunda-feira, 13 de julho de 2009
Urgência
Os meus planos são pra hoje. Eu quero os meus amigos pra hoje. Quero perseguir os meus sonhos, alcançar os meus objetivos, recitar a minha poesia mesmo que ela esteja sendo feita por mim agora. Quero comer as guloseimas mais gostosas, ver todos os filmes que me vêm em mente, ouvir aquela música agora no youtube. Hoje eu vou dizer que te amo, vou repudiar as minhas ilusões e iluminar as minhas idéias com a ação das minhas mãos. O sorvete de chocolate é pra hoje, a corrida na praia, os beijos e loucuras de amor. São pra hoje as minhas lágrimas e o sorriso que nasce depois delas. Assim como toda a minha revolta e todo o meu afeto. Hoje eu vou falar pra quem quiser ouvir, vou rir das piadas mais complicadas mesmo sem ter entendido, porque as gargalhadas são pra hoje. Eu quero tudo com urgência. Nada ao mesmo tempo, uma coisa após a outra. Eu quero tudo pra hoje, porque hoje é o agora, um segundo que se passa, uma festa que se dança, é as flores que se regam e as folhas que caem das árvores. E o amanhã não me importa, porque eu não quero pensar nisso hoje.
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