Se Deus fosse homem certamente não seria um velho ranzinza, barburdo, sentado numa poltrona de costas para o mundo. Se Deus fosse homem seria um homem isento de virtudes divinas, não um Jesus ou um outro santo qualquer. Se Deus fosse homem seria um homem de carne, osso e imperfeições. Acharia o mundo uma escola, os escritores os melhores alunos não pela inteligência, mas por buscarem o saber, e aqueles que não procuram em si um resquício de sensibilidade, seres vazios e tristes. Se Deus fosse homem não teria religião, rejeitaria qualquer tipo de adoração que não fosse pelos seus semelhantes. Se Deus fosse homem seria mais jovem que nós, e trataria de se reciclar diante todas as transformações do mundo. Se Deus fosse homem morreria em vida e renasceria mais forte, mais maduro, com menos preconceitos e com uma vivência que o tornaria mais humano. Se Deus fosse homem rejeitaria tradições, teria viajado o mundo, viveria o apogeu e a desgraça como num ciclo infindo. Se Deus fosse homem não teria ídolos, buscaria o autoconhecimento por aqueles que produzem arte. E faria arte, se expressaria para tratar a alma. Seria humilde por um dia ter reconhecido sua própia arrogância, sorriria sempre por saber que a qualquer momento poderia cair em prantos. Se Deus fosse homem não faria distinção aos sexos e saberia que ele está na mente de cada um. Que no mundo existe uma linha tênue entre ser homem e ser mulher, e que ninguém é um ou outro em sua totalidade. Que por essa linha passam as orientações sexuais, e o amor gay que se confunde com qualquer tipo de amor, justamente porque amor é sempre igual. Se Deus fosse homem veria todos como irmãos e teria pais e mães a cada esquina, filhos a cada jornada, e amigos aos milhões, mesmo depois de eles se perderem no tempo. Se Deus fosse homem haveria de querer perdoar, mas se não conseguisse, apenas pediria aos céus por clemência por não se sentir capaz. Se Deus fosse homem seria afetuoso por muitas vezes ter se sentido solitário, seria festeiro por querer viver os momentos, só por celebrar a vida, por amar a vida. Se Deus fosse homem não acharia ser Deus, e sim acharia os homens. Por não se falarem, por não se entenderem, por se endeusarem quando providos de poder, por calarem-se diante das questões e procurarem respostas que lhes sejam convenientes. Por não aceitarem as diferenças e tudo aquilo que foge dos seus planos. Por não ouvirem o próximo e amarem apenas aqueles que concordam com seus conceitos desfasados pelo tempo. E no mundo teríamos milhões de deuses. E Deus mesmo seria ateu, se ele fosse homem.
domingo, 11 de março de 2012
domingo, 26 de fevereiro de 2012
Os dramas do amor romântico
Ainda que sobrevivamos aos casos e acasos, não aprendemos com eles. Acho que talvez estejamos presos a um inconsciente coletivo, a uma falsa ilusão de que o amor existe. E eis que paira sobre mim uma questão: O amor realmente existe? Talvez não exista palavra mais idealizadora que essa. Amor pra mim é divino e os homens seres incapazes de suportar tamanha força. Não damos conta do amor, mas até que poderíamos se todos os namoros vivessem congelados no seu primeiro ano de vida. Toda a idealização do amor está ali: aquela doçura de quem se ama, a compreensão, os afagos e o sexo latente que não sobrevive, mesmo que tentemos, ao poder corrosivo do tempo. E quem diz que ama da mesma maneira que há uma década atrás está mentindo. Hoje minha mãe me diz que se vivesse no meu tempo jamais casaria. De certo modo até que a entendo, mas a verdade é que somos solitários e que a angústia da existência nos impulsiona a procurar algum tipo de consolo. Estamos longe do autocontrole, da auto-suficiência e mesmo quem se diga resistente ao amor, uma ora ou outra acaba perdendo a batalha. Confesso que merecem aplausos os infiéis ou quem ama mais de um. Talvez essa seja uma solução para fugir do amor romântico. E quem não tem o dom de se render aos relacionamentos modernos, acaba por ruir aos poucos nessa velha e amarga novela. A modernidade pode ser uma arma a nosso favor. Já não se vê com maus olhos quem troca de parceiro a cada estação e nem quem trata uma fossa com transas casuais. Hesito um pouco em falar que cada um tem o seu jeito de amar, pois já vi muitos casos em que os mais insensíveis dos seres se transformam em mocinhas dos romances de jornaleiro. Há quem diga que o amor é uma criação do homem assim como a fé, e por silogismo amar é ter fé. É acreditar que mesmo com as diferenças, com as brigas e o rancor, no fim vai valer a pena, mas o problema é que a modernidade é cética. Não acreditamos mais nos outros depois de algumas desilusões e não nos deixamos mais abertos com medo de sermos destroçados novamente. Uma opção seria tratar o amor como uma religião. Cultivar o amor, ser fiel ao amor, praticá-lo e senti-lo sem medo. Apenas por acreditar que aquilo pode dar certo se os dois quiserem, mas sem cobranças. E guardar quaisquer que sejam as questões sem desistir que a vida nos dê uma resposta. Porque de uma maneira ou de outra, ela sempre dá.
Caco Garcia.
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
O amor não funciona para todos. De uma maneira ou de outra, somos sempre incompatíveis. Por mais que se queira, o amor não dá certo. Para funcionar, o amor precisaria ter um equilíbrio. E hoje eu vejo que é impossível duas pessoas se manterem em equilíbrio. Mais cedo ou mais tarde um lado vai pesar mais que o outro e a corda arrebenta. Um lado sofre muito, o outro sofre menos. Um lado supera, o outro não. Eu tenho medo do amor porque sei que eu sou o lado da corda que arrebenta. Nunca fui um homem tão amável, daqueles que alguém se apaixona de cara. Sempre precisei conquistar, correr atrás, lutar para conseguir alguém que eu amasse. Enquanto os outros não precisam nem abrir a boca e já têm uma legião de admiradores. Eu acho que o amor já começou a falhar para mim e o meu lado da corda já está dando os seus primeiros sinais de desgaste.
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
Era disso que eu estava sentindo falta. Alguns dias atrás queria andar de bicicleta no Aterro, ir à praia, comprar um partins, viajar sei lá pra onde, no intuito de obter algum tipo de prazer. Queria amigos sim, e os queria junto nessas aventuras, mas quando estou contigo parece que quero apenas as coisas simples. Tudo o que precisamos é de um ar condicionado e um lugar para sentar e jogar conversa fora. Os bons amigos são assim, sempre têm assunto e criatividade de nos fazer rir. Notei que não estamos velhos, estamos maduros. Você com essa sua impulsividade contida ou voltada pra alguém que te faz sorrir e esquecer aqueles dias cinzentos da sua cabeça. Eu agora sem pudor, falando o que penso e mais livre como nunca fui antes. Por um momento nos imaginei casados, com filhos ou não, ricos ou não( até porque isso não nos importa mais) , na minha casa ou na sua. Um pouco de cerveja pra mim e uma bebida mais forte pra você e noite inteiras falando da vida, do amor, enfim, falando de nós. Acho que somos paixão, você e eu. Cada um à sua maneira, eu como o meu jeito de velho e você com essa jovialidade que te cerca. Eu te leio sem os seus textos e te digo que conheço um pouco de você. Talvez a parte que você conhece de si mesmas, porque a outra é mistério. Algo que aprendi contigo e levo para mim agora na vida, de que ontem fomos outros, que nascemos e morremos em vida com a vivência de experiências passadas. Acho que esse é o sentido de ser. E assim seguimos em frente e nos tornamos maduros.
quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
Sobre a verdade
Eu queria entender de tudo. Queria entender as teorias, os livros de ciências, as equações de matemática, as filosofias. Eu queria entender os cegos, como eles enxergam o mundo sem ao menos saber a sua tonalidade. Queria entender os incrédulos e os crentes. As mulheres apaixonadas, os fanáticos por futebol, eu queria entender o amor. Não o amor carnal ou que escorre pelos sentimentos. Digo o amor pelas coisas, os vícios, as ânsias, os prazeres. Eu queria entender os discursos, a essências das coisas, os sentidos das palavras... É isso! Eu queria as palavras. Não as palavras escritas no papel e reproduzidas a exaustão. Eu queria entender as palavras cuspidas em momentos de euforia, de raiva, de felicidade. Saber do seu caráter efêmero, da sua futilidade, da atribuição de sentidos ou da falta deles. Eu queria entender os senhores, digo os anciãos com radinhos de pilha sentados na varanda no fim do dia. Eu queria entender as contradições, mas como entendê-las se entender é esquecer que o mundo tem um contrário? Eu queria entender o mundo em suas formas e cores. O peso da existência e a sutileza de existir sem significar. Talvez quanto mais significados copiamos dos outros mais entendemos as coisas. Talvez entender esteja em apenas aceitar a verdade dita, criada, fabricada como as latinhas de cerveja. E beber visões sem contestá-las. Sem se ater aos detalhes, apenas digerir ilusões. Talvez entender só seja possível se não se deixar entender. Se não fizer questão e aceitar discursos, com o olhar pacato que condiz com o segredo de que no fundo você não está entendendo nada.
quarta-feira, 7 de setembro de 2011
Sobre o amanhã
O mundo muda, o tempo muda, os outros deixam de ser os mesmos. Todos os dias, momentos, alegrias, festas e encontros, tudo se tornará ontem. E a nós cabe o fardo de seguir o tempo. Mesmo sem ritmo, mesmo com demora, mesmo atrasados e desatentos. O tempo anda e não olha para trás, não nos espera amarrar os cadarços para não tropeçarmos pelo caminho. O tempo é cego, não nos entende e nem nos consola. A verdade é que todos nós, não importa quem sejamos, mesmo com amor ou não, tememos ao tempo. Por isso chamamos por Deus, por isso nos casamos e temos filhos, por isso amamos e revelamos as fotos para guardar o que é nosso. Por isso te olho mesmo quando dorme, com esse seu rosto jovem, as pupilas adormecidas e a sua expressão serena de que tudo vai acabar bem. Um dia cruzaremos a mesma esquina, e por isso exagero ao dizer que te amo. Amanhã teremos rugas, as dúvidas serão mais presentes, o que nos é invisível aos olhos, nos será mais claro do que nunca. O tempo nos muda o tempo todo. Até mesmo agora, quando estamos sentados na poltrona, ou sorrindo numa mesa de bar, ou fazendo amor, ou cantando no chuveiro, ou andando sem destino banhados pelo horizonte que adorna o mar. Ou lendo um livro pouco antes de dormir, ou apenas pensando na vida sem chegar a conclusão alguma.
domingo, 28 de agosto de 2011
Sobre nós
Um dia teremos a plena noção de que não somos apenas dessa vida. Uma dia teremos certeza de que há muito tempo caminhamos juntos. De que há muito enfrentamos problemas e pessoas e que passamos por tudo com a força do amor de nós dois para nós mesmos. Um dia vou poder te falar o quanto eu me orgulho de ver que acima de todos os seus princípios e julgamentos prevaleceu aquilo que faz um homem conseguir manter-se vivo diante das incertezas esmagadoras da vida. Um dia olharemos um para o outro e nos abraçaremos ao entendermos as nossas humanidades. Um dia eu quero poder te botar num carro e te fazer conhecer os verdadeiros seres humanos e te curar de toda a sua dor. Quero te trazer o afeto daqueles que jamais pensou terem compaixão e te fazer abrir os braços para o mundo. Um dia eu vou te dizer o quanto eu te amo por tudo o que fez e o que faz por mim, por todo o seu silêncio que me dá a plena noção de que sem você eu nada seria. Um dia veremos as nossas eternidades de perto e do quanto precisamos andar sempre de mãos dadas. Veremos que temos os mesmos sonhos, os mesmos medos e nos lembraremos daquele pesadelo que tivemos quando eu ainda era um menino. Lembraremos de quando eu te escrevia aquelas cartinhas cheias de erros, mas com a mesma paixão da qual hoje escrevo almejando ser escritor. Lembraremos da poesia que nos move, da força que nos atrai e que empurra o nosso peito ao abismo quando estamos longe. Um dia faremos tudo o que os outros nos privam e mostraremos a todos o quanto somos incríveis, ou apenas o quanto você é incrível. Um dia isso tudo passará e ao passado restarão apenas memórias ruins. Um dia olharemos para trás e veremos o quanto crescemos juntos, do quanto aprendemos a ser adultos, do quanto ensinamos a nós mesmos a difícil arte de amar. Um dia eu quero poder te levar para jantar e desfrutar das nossas poucas vaidades. Um dia seremos livres e nos livraremos das escolhas errôneas que fizemos sem pensar. Um dia veremos o quanto somos iguais, tão iguais até que algum dia deixaremos de ser somente mãe e filho e seremos apenas um.
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