domingo, 2 de dezembro de 2012

Sinais

Vamos largar as mãos porque não estamos juntos. Todo esse discurso de que solidão se cura com abraços é apenas papo dos iludidos. Enquanto estivermos e sermos, jamais entederemos o poder da unidade. Dois pés não pisam nos mesmos vidros, duas almas não sentem a mesma dor. A correnteza da existência talvez seja a força motora impulsiona os nossos passos. Somos arremessados para longe daqueles que nadam e poucos são os que não se afogam. Mesmo assim, te digo que devemos tentar. Vamos inflar o peito de ar quando chegar a nova onda. Vamos nadar para perto de nós, vamos nos agarrar aos sorrisos que nos alegram para criarmos rotas. É difícil entender o movimento do mar, é difícil nadar sem saber o destino. É complicado andar em terra firme com os olhos vendados sem saber onde é o horizonte. Pessoas passam como vento, como um grão de pólen que fecunda a próxima flor à quilômetros de distância. Talvez essa nossa tentativa de manter todos à vista possa ser em vão, mas como te pedi, não custa nada tentar. São apenas os laços que nos dão um rumo, apenas eles que nos localizam, que nos dão chão.  A vida é por si só uma experiência solitária. Então muito mais que dar as mãos, é preciso acenar quanto se está longe. Distantes estamos sempre, eu de ti e às vezes longe de mim mesmo. Para nos reconhecermos, devemos nos conhecer primeiro. Não preciso saber da sua cor favorita, nem da música que mais toca no seu rádio. É necessário te ouvir e saber das suas dores. Se apenas se calar, será difícil que com o tempo continue o mesmo e que quando eu te olhar novamente, me identifique contigo. Todos os anos, os meses, os dias, os minutos e os segundos corroem as coisas e transformam-nas em coisas novas. Mostre o seu âmago sem medo, pois ele é a sua única parte que não se modifica com o mundo. Sejamos poetas em nossas conversas, sejamos filósofos a cada encontro. E só assim jamais nos tornaremos estranhos.

domingo, 11 de março de 2012

Se Deus fosse homem


Se Deus fosse homem certamente não seria um velho ranzinza, barburdo, sentado numa poltrona de costas para o mundo. Se Deus fosse homem seria um homem isento de virtudes divinas, não um Jesus ou um outro santo qualquer. Se Deus fosse homem seria um homem de carne, osso e imperfeições. Acharia o mundo uma escola, os escritores os melhores alunos não pela inteligência, mas por buscarem o saber, e aqueles que não procuram em si um resquício de sensibilidade, seres vazios e tristes. Se Deus fosse homem não teria religião, rejeitaria qualquer tipo de adoração que não fosse pelos seus semelhantes. Se Deus fosse homem seria mais jovem que nós, e trataria de se reciclar diante todas as transformações do mundo. Se Deus fosse homem morreria em vida e renasceria mais forte, mais maduro, com menos preconceitos e com uma vivência que o tornaria mais humano. Se Deus fosse homem rejeitaria tradições, teria viajado o mundo, viveria o apogeu e a desgraça como num ciclo infindo. Se Deus fosse homem não teria ídolos, buscaria o autoconhecimento por aqueles que produzem arte. E faria arte, se expressaria para tratar a alma. Seria humilde por um dia ter reconhecido sua própia arrogância, sorriria sempre por saber que a qualquer momento poderia cair em prantos. Se Deus fosse homem não faria distinção aos sexos e saberia que ele está na mente de cada um. Que no mundo existe uma linha tênue entre ser homem e ser mulher, e que ninguém é um ou outro em sua totalidade. Que por essa linha passam as orientações sexuais, e o amor gay que se confunde com qualquer tipo de amor, justamente porque amor é sempre igual. Se Deus fosse homem veria todos como irmãos e teria pais e mães a cada esquina, filhos a cada jornada, e amigos aos milhões, mesmo depois de eles se perderem no tempo. Se Deus fosse homem haveria de querer perdoar, mas se não conseguisse, apenas pediria aos céus por clemência por não se sentir capaz. Se Deus fosse homem seria afetuoso por muitas vezes ter se sentido solitário, seria festeiro por querer viver os momentos, só por celebrar a vida, por amar a vida. Se Deus fosse homem não acharia ser Deus, e sim acharia os homens. Por não se falarem, por não se entenderem, por se endeusarem quando providos de poder, por calarem-se diante das questões e procurarem respostas que lhes sejam convenientes. Por não aceitarem as diferenças e tudo aquilo que foge dos seus planos. Por não ouvirem o próximo e amarem apenas aqueles que concordam com seus conceitos desfasados pelo tempo. E no mundo teríamos milhões de deuses. E Deus mesmo seria ateu, se ele fosse homem.


domingo, 26 de fevereiro de 2012

Os dramas do amor romântico


Ainda que sobrevivamos aos casos e acasos, não aprendemos com eles. Acho que talvez estejamos presos a um inconsciente coletivo, a uma falsa ilusão de que o amor existe. E eis que paira sobre mim uma questão: O amor realmente existe? Talvez não exista palavra mais idealizadora que essa. Amor pra mim é divino e os homens seres incapazes de suportar tamanha força. Não damos conta do amor, mas até que poderíamos se todos os namoros vivessem congelados no seu primeiro ano de vida. Toda a idealização do amor está ali: aquela doçura de quem se ama, a compreensão, os afagos e o sexo latente que não sobrevive, mesmo que tentemos, ao poder corrosivo do tempo. E quem diz que ama da mesma maneira que há uma década atrás está mentindo. Hoje minha mãe me diz que se vivesse no meu tempo jamais casaria. De certo modo até que a entendo, mas a verdade é que somos solitários e que a angústia da existência nos impulsiona a procurar algum tipo de consolo. Estamos longe do autocontrole, da auto-suficiência e mesmo quem se diga resistente ao amor, uma ora ou outra acaba perdendo a batalha. Confesso que merecem aplausos os infiéis ou quem ama mais de um. Talvez essa seja uma solução para fugir do amor romântico. E quem não tem o dom de se render aos relacionamentos modernos, acaba por ruir aos poucos nessa velha e amarga novela. A modernidade pode ser uma arma a nosso favor. Já não se vê com maus olhos quem troca de parceiro a cada estação e nem quem trata uma fossa com transas casuais. Hesito um pouco em falar que cada um tem o seu jeito de amar, pois já vi muitos casos em que os mais insensíveis dos seres se transformam em mocinhas dos romances de jornaleiro. Há quem diga que o amor é uma criação do homem assim como a fé, e por silogismo amar é ter fé. É acreditar que mesmo com as diferenças, com as brigas e o rancor, no fim vai valer a pena, mas o problema é que a modernidade é cética. Não acreditamos mais nos outros depois de algumas desilusões e não nos deixamos mais abertos com medo de sermos destroçados novamente. Uma opção seria tratar o amor como uma religião. Cultivar o amor, ser fiel ao amor, praticá-lo e senti-lo sem medo. Apenas por acreditar que aquilo pode dar certo se os dois quiserem, mas sem cobranças. E guardar quaisquer que sejam as questões sem desistir que a vida nos dê uma resposta. Porque de uma maneira ou de outra, ela sempre dá.

Caco Garcia. 

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

O amor não funciona para todos. De uma maneira ou de outra, somos sempre incompatíveis. Por mais que se queira, o amor não dá certo. Para funcionar, o amor precisaria ter um equilíbrio. E hoje eu vejo que é impossível duas pessoas se manterem em equilíbrio. Mais cedo ou mais tarde um lado vai pesar mais que o outro e a corda arrebenta. Um lado sofre muito, o outro sofre menos. Um lado supera, o outro não. Eu tenho medo do amor porque sei que eu sou o lado da corda que arrebenta. Nunca fui um homem tão amável, daqueles que alguém se apaixona de cara. Sempre precisei conquistar, correr atrás, lutar para conseguir alguém que eu amasse. Enquanto os outros não precisam nem abrir a boca e já têm uma legião de admiradores. Eu acho que o amor já começou a falhar para mim e o meu lado da corda já está dando os seus primeiros sinais de desgaste.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Era disso que eu estava sentindo falta. Alguns dias atrás queria andar de bicicleta no Aterro, ir à praia, comprar um partins, viajar sei lá pra onde, no intuito de obter algum tipo de prazer. Queria amigos sim, e os queria junto nessas aventuras, mas quando estou contigo parece que quero apenas as coisas simples. Tudo o que precisamos é de um ar condicionado e um lugar para sentar e jogar conversa fora. Os bons amigos são assim, sempre têm assunto e criatividade de nos fazer rir. Notei que não estamos velhos, estamos maduros. Você com essa sua impulsividade contida ou voltada pra alguém que te faz sorrir e esquecer aqueles dias cinzentos da sua cabeça. Eu agora sem pudor, falando o que penso e mais livre como nunca fui antes. Por um momento nos imaginei casados, com filhos ou não, ricos ou não( até porque isso não nos importa mais) , na minha casa ou na sua. Um pouco de cerveja pra mim e uma bebida mais forte pra você e noite inteiras falando da vida, do amor, enfim, falando de nós. Acho que somos paixão, você e eu. Cada um à sua maneira, eu como o meu jeito de velho e você com essa jovialidade que te cerca. Eu te leio sem os seus textos e te digo que conheço um pouco de você. Talvez a parte que você conhece de si mesmas, porque a outra é mistério. Algo que aprendi contigo e levo para mim agora na vida, de que ontem fomos outros, que nascemos e morremos em vida com a vivência de experiências passadas. Acho que esse é o sentido de ser. E assim seguimos em frente e nos tornamos maduros.


quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Sobre a verdade


Eu queria entender de tudo. Queria entender as teorias, os livros de ciências, as equações de matemática, as filosofias. Eu queria entender os cegos, como eles enxergam o mundo sem ao menos saber a sua tonalidade. Queria entender os incrédulos e os crentes. As mulheres apaixonadas, os fanáticos por futebol, eu queria entender o amor. Não o amor carnal ou que escorre pelos sentimentos. Digo o amor pelas coisas, os vícios, as ânsias, os prazeres. Eu queria entender os discursos, a essências das coisas, os sentidos das palavras... É isso! Eu queria as palavras. Não as palavras escritas no papel e reproduzidas a exaustão. Eu queria entender as palavras cuspidas em momentos de euforia, de raiva, de felicidade. Saber do seu caráter efêmero, da sua futilidade, da atribuição de sentidos ou da falta deles. Eu queria entender os senhores, digo os anciãos com radinhos de pilha sentados na varanda no fim do dia. Eu queria entender as contradições, mas como entendê-las se entender é esquecer que o mundo tem um contrário? Eu queria entender o mundo em suas formas e cores. O peso da existência e a sutileza de existir sem significar. Talvez quanto mais significados copiamos dos outros mais entendemos as coisas. Talvez entender esteja em apenas aceitar a verdade dita, criada, fabricada como as latinhas de cerveja. E beber visões sem contestá-las. Sem se ater aos detalhes, apenas digerir ilusões. Talvez entender só seja possível se não se deixar entender. Se não fizer questão e aceitar discursos, com o olhar pacato que condiz com o segredo de que no fundo você não está entendendo nada.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Sobre o amanhã

O mundo muda, o tempo muda, os outros deixam de ser os mesmos. Todos os dias, momentos, alegrias, festas e encontros, tudo se tornará ontem. E a nós cabe o fardo de seguir o tempo. Mesmo sem ritmo, mesmo com demora, mesmo atrasados e desatentos. O tempo anda e não olha para trás, não nos espera amarrar os cadarços para não tropeçarmos pelo caminho. O tempo é cego, não nos entende e nem nos consola. A verdade é que  todos nós, não importa quem sejamos, mesmo com amor ou não, tememos ao tempo. Por isso chamamos por Deus, por isso nos casamos e temos filhos, por isso amamos e revelamos as fotos para guardar o que é nosso. Por isso te olho mesmo quando dorme, com esse seu rosto jovem, as pupilas adormecidas e a sua expressão serena de que tudo vai acabar bem. Um dia cruzaremos a mesma esquina, e por isso exagero ao dizer que te amo. Amanhã teremos rugas, as dúvidas serão mais presentes, o que nos é invisível aos olhos, nos será mais claro do que nunca. O tempo nos muda o tempo todo. Até mesmo agora, quando estamos sentados na poltrona, ou sorrindo numa mesa de bar, ou fazendo amor, ou cantando no chuveiro, ou andando sem destino banhados pelo horizonte que adorna o mar. Ou lendo um livro pouco antes de dormir, ou apenas pensando na vida sem chegar a conclusão alguma. 

domingo, 28 de agosto de 2011

Sobre nós

Um dia teremos a plena noção de que não somos apenas dessa vida. Uma dia teremos certeza de que há muito tempo caminhamos juntos. De que há muito enfrentamos problemas e pessoas  e que passamos por tudo com a força do amor de nós dois para nós mesmos. Um dia vou poder te falar o quanto eu me orgulho de ver que acima de todos os seus princípios e julgamentos prevaleceu aquilo que faz um homem conseguir manter-se vivo diante das incertezas esmagadoras da vida. Um dia olharemos um para o outro e nos abraçaremos ao entendermos as nossas humanidades. Um dia eu quero poder te botar num carro e te fazer conhecer os verdadeiros seres humanos e te curar de toda a sua dor. Quero te trazer o afeto daqueles que jamais pensou terem compaixão e te fazer abrir os braços para o mundo. Um dia eu vou te dizer o quanto eu te amo por tudo o que fez e o que faz por mim, por todo o seu silêncio que me dá a plena noção de que sem você eu nada seria. Um dia veremos as nossas eternidades de perto e do quanto precisamos andar sempre de mãos dadas. Veremos que temos os mesmos sonhos, os mesmos medos e nos lembraremos daquele pesadelo que tivemos quando eu ainda era um menino. Lembraremos de quando eu te escrevia aquelas cartinhas cheias de erros, mas com a mesma paixão da qual hoje escrevo almejando ser escritor. Lembraremos da poesia que nos move, da força que nos atrai e que empurra o nosso peito ao abismo quando estamos longe. Um dia faremos tudo o que os outros nos privam e mostraremos a todos o quanto somos incríveis, ou apenas o quanto você é incrível. Um dia isso tudo passará e ao passado restarão apenas memórias ruins. Um dia olharemos para trás e veremos o quanto crescemos juntos, do quanto aprendemos a ser adultos, do quanto ensinamos a nós mesmos a difícil arte de amar. Um dia eu quero poder te levar para jantar e desfrutar das nossas poucas vaidades. Um dia seremos livres e nos livraremos das escolhas errôneas que fizemos sem pensar. Um dia veremos o quanto somos iguais, tão iguais até que algum dia deixaremos de ser somente mãe e filho e seremos apenas um. 

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Sobre a solidão

Entender a própria essência é o mesmo que isolar-se num quarto escuro e só sentir o próprio hálito quente na boca fresca. Entender-se vai mais que o limite da razão de um homem que mal consegue ter tempo de ficar sozinho. Não ache que não gosto dos outros, meu amor. Gosto tanto que sinto falta quando não os tenho, mas a verdade é que todo homem precisa de um pouco de solidão. Os maiores gênios das palavras não fizeram seus versos cercados de amigos numa mesa de bar. Sentir-se só às vezes pode nos trazer a luz que a multidão ofusca. Por isso não flagelo o meu peito com a dor da minha mente que não dorme. Deixo-a digerir o que penso, catar os farelos das minhas incertezas que habitam uma noite como essa, em que nada na tv prende a minha atenção e no rádio tocam as velhas canções que me trazem o tempo que passou. Já andei pelos cômodos como o um senhor aposentado cujo sono não vem. Já fumei um cigarro e namorei a lua na varanda da sala. As horas passam como dias e o vento que invade a janela congela minha alma. Estou turvo como a noite. Sem nuvens que me levam a esconder as minhas culpas, sem a penumbra que oculta o meu remorso. Sem vozes, somente com silêncio e poesia. A noite me desnuda, nela não importa o carro que tenho na garagem e nem as mulheres que me seduzem. Dos estalos de consciência surgem fantasmas. Tristes pensamentos que me envergonho e que se soubesses te magoaria, mas se não os tivesse, como poderia questionar a vida? Não há razão naquilo que não se contesta. Por isso penso, sorrio, enrubesço e choro nessa cena sem atores.



sábado, 2 de abril de 2011

Sobre o medo

Tenho medo de abrir os olhos. Prefiro sentir o mundo a ter que vê-lo. Então fecho as janelas e não deixo passar por entre as fendas as luzes da cidade. Aqui dentro apenas existem as velas dos meus pensamentos. Tão turvas que mal me deixam definir a forma das coisas, mas é assim que decidi seguir em frente. O real me assusta, meu amor. Confesso que passo os dias temendo encontrar a razão. Muitos dos que a acharam se perderam. Muitos dos que injetaram em si um pouco de consciência, mataram suas crenças. Tenho plena noção desse tempo e não reajo a ele como um fantasma perdido do mundo dos vivos. Eu conheço os homens, sei de suas fraquezas e inconstâncias e confesso que sou igual. Não vou mentir que os sorrisos não me atraem, mas admito que não gosto de mistérios. Descobri que me deitar com estranhos me enchia o corpo de prazer e me esvaziava a alma. Quero crer que ainda somos um pouco divinos mesmo que todas as virtudes dos romances hoje tenham caído por terra. Quero sustentar as minhas eternidades falsas. Não quero apostar na vida fichas de esperança, e nem extrair de outros lábios as gotas que me saciam o amor. Não quero escrever as mesmas cartas e só trocar os selos. Não quero seguir passos alheios e por fim descobrir que perdi os meus. Às vezes penso que a vida é como gelo e que trazer à tona as nossas questões pode implicar em derreter o nosso mundo. O meu desejo é apenas provar o gosto doce das coisas simples e me enganar maquiando os meus defeitos. Por isso te peço que me deixes às escuras de mim mesmo e que não estrague a minha ilusão. Eu apenas quero beijar a vida sem ter que abrir os olhos para ela e ela para mim.



Caco Garcia.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Sobre mim

Eu quero viver o inverso, mas o mundo não deixa. Eu nasci mais fraco que o mundo e ele me engole. Devora-me a ponto de me fazer sentir um simples indivíduo no meio de um bando. Que não sabe o que faz e nem o que segue, mas que obedece a trilha. Embora eu siga o caminho, eu não sou como os outros. Não sou fraco, não me alieno, mas continuo seguindo. Sigo porque o mundo me obriga. Talvez por covardia ou por medo da derrota. Sendo assim, o mundo me brinda. Bebe cada gota do meu suor e come cada parte dos meus sonhos. O mundo é idôneo aos homens nasceram no topo. Tão no topo que eles se confundem com o mundo, que eles se tornam o mundo. Homens que devoram homens. Que bebem sangue de homens. Eu não quero ser parte desse mundo. Eu não quero beber o mundo. Eu só quero viver o inverso. Eu quero viver de arte, eu quero viver de mim.



Caco Garcia.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Estrelinha

Por onde andas estrelinha,
que não vem mais dar luz às noites minhas?
Onde estás que não te vejo mais?
Onde se escondes?
Me diz por onde que eu vou te buscar
Mesmo que enorme seja o caminho a se distanciar
Eu te espero de manhã ao sol nascer
Até ele dormir ao anoitecer
Se não me brilha e os olhos me aquece
Não tenho sonhos na escuridão que padece
De noite agora estou sozinho
Nem tons cintilam a mim, nem mesmo um brilho
Se a luz dos outros astros está a viver sem fim
Nem de longe brilha como a tua brilha em mim
Vem me dar vida às minhas noites sem cor
E me clareia com o seu mais belo amor
Já que escuro está o meu quarto de cama de sentar
Faz tua cauda a minha alma incendiar
E mesmo que fechada a vista minha esteja
Tudo se vê a algo que se deseja
E que bem longe de mim você possa estar
Me faz feliz somente de te olhar.

Caco Garcia.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Sobre a ilusão

Antes que saiba quem eu sou, quero te pedir um favor. Não me odeie. Mesmo que eu não seja o mais digno dos seres, eu tenho as minhas virtudes. Parece que sempre venho na hora errada e que tudo que é fugaz leva na face a minha assinatura. Meu trabalho não é fácil e exige o máximo de cautela. Enquanto os outros executam tudo o que pensam, eu observo. Ajo na hora exata. Não sou filósofo. Não questiono a existência até porque não há nada para se questionar. O fato é que preciso te contar um segredo. Eu sou a essência da vida. E não bata a porta e vá embora sem antes digerir o que eu lhe disse. A verdade dói, meu caro. E se tentar refletir verá que a mesma não é dúbia. Dúbio é o ser. E este é o sujeito que me rejeita. Por isso vivo sozinho. Vagando pelas ruas tentando acordar os homens e impedí-los de fazer planos. Os homens são tolos, pobres seres redundantes. Inconformados de que o sonho é apenas devaneio. E que estar vivo consiste em ser lúcido. Em saber que o sentido de ser não está atribuído de sinônimos. Eu não quero te deixar triste. Quero apenas que veja que o caminho que não se traçou, jamais se traçará. Não existem estradas nessa terra. Tudo é pura invenção. O que é existe é areia, pedra e água. Então não transforme a vida em coisas, como fizestes com esses elementos. O motivo de eu estar aqui te dizendo todas essas palavras é porque preciso esclarecer de que não sou quem gostarias que eu fosse. Eu não me chamo destino. Prazer! Eu me chamo acaso. Caco Garcia.

domingo, 14 de novembro de 2010

Sobre a vida

Eu ontem estava morto. E hoje não sou mais apenas um simples corpo que voz fala. Agora possuo uma alma novamente. Morri. Notei-me ofegante, meu peito pulsou até deixá-lo de sentir. Como assim não entendes como posso ter morrido e estar escrevendo esse texto agora? Não, eu não me psicografo. Meus dedos digitam cada palavra que cuspo da minha mente e habitam esse terreno da tela no meio da noite. Se não entendes é porque nunca morreu. Ou pelo menos nunca aceitou a verdade. Muitos se negam a enxergar o próprio desterro. E vivem a enganar a alma com os olhos cegos. Porém quem já morreu é capaz de ver os mortos quando vive de novo. Vejo minha mãe sentada no sofá a franzir tecidos para aprontar lacinhos de menina, com sua vida pacata e seus sonhos perdidos no limbo. Pessoas a passarem por mim com seus rostos inexpressivos e seus andares cabisbaixos. Como poetas sem verve, como dias cinza e paisagens cobertas pela neblina. Mas as pessoas disfarçam que estão mortas enquanto puderem andar e exercer suas funções. Camuflam-se no meio dos vivos como uma mera representação de si mesmos. Como retratos cujos sorrisos congelados escondem a felicidade que já morreu. Há muitos que não acreditam na morte e acabam por viver na ilusão de suas convicções. Culpam os outros pela própria desgraça e destroem a leveza da alma com o peso de suas ignorâncias. É claro que não existem somente mortes naturais. A vida é uma comédia dos erros. E os homens seus atores que praticam e sofrem a ação. Todos nós, vilões e mocinhos. Muitos dizimam vidas ou se matam sem se dar conta. Porque vida é frágil e saber viver implica em morrer muitas vezes.




Caco Garcia

domingo, 21 de março de 2010

Sobre a felicidade

Quando a lua padeceu, meu pensamento se abriu. Olhos fechados e apenas os lábios abertos a quem pode me beijar a alma. Você chegou tão doce com esses braços macios e brandos, a pele tão fina que me lembrava seda e a boca tão cheia de libido de que inundou o âmago. Esmaeci, senti o corpo irregular e um formigamento me torturou as pernas irritadas. Parecia estar longe dali tudo o que havia pensado. Por vezes me revolto quando sinto seus defeitos. Porém o pior é saber que eles são as qualidades que me faltam. Os homens são cheios de falhas e as nós cabe a tarefa de nos tolerar. Aceitar as nossas humanidades e ver de perto a nossa própria verdade. Os olhos não enganam e as palavras ainda menos. Não importam quais sejam as que escapem da boca. A entonação muda tudo. Sei quando minto e sei quando você percebe. Admiro a sua capacidade de calar-se e expor suas falas pelos atos. E se antes eu repudiava presentes e agrados excessivos enquanto tudo o que eu queria era um pouco de atenção. Hoje me envergonho de saber que toda a minha intolerância nascia da minha própria estupidez. Então não se entristeça, amor. Não consigo pôr ênfase nas alegrias como ponho nas tristezas. Talvez isso seja um vício. Talvez eu ainda não tenha me acostumado em não sentir mais dor. E talvez eu procure um pouco de sofrimento no que acredito ser felicidade. Mas a verdade é que sou cético. Sempre me achei o mais sensível dos seres e sempre pensei conhecer o amor. Mas eu apenas me enganei. O tempo não nos muda, eles nos conforma. E quando você apareceu, o tempo me surrava com a amargura das minhas desilusões, me pondo no limbo do caminho que se desviava do meu destino. Só te peço pra ser paciente. Espere os sorrisos que eles virão. Assim como os pulos de felicidade e os olhos excitados por mais um agrado seu. Entre as minhas muitas experiências percebo que era virgem nas coisas mais simples da vida. E em você, mesmo que eu não perceba um homem, eu vejo um grande jogador. Guardando na manga todas as cartas que preciso para voltar a ter fé. E que por mais que nesse jogo as pessoas blefem, em você eu confio. Sei que jamais me roubaria algo que posso roubar de ti. E isso reflete a nossa dependência. Sejamos honestos em não trair esse vício que nos consome. Que nos leva ao extremo, ao deserto que habita o nosso peito, a mais doce vontade de te ver de novo. A um sorriso seu, que assim como um bocejo, me faz sorrir mais uma vez.


Caco Garcia

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Sobre o amor

Passado o tempo me pergunto da certeza. É claro que não temos a mesma força de Deus em inflar o âmago ao apontar um ato e dizer sim, mas eu fiz escolhas. Não importa analisar os fatos e criar hipóteses sobre o talvez. O mundo é real e eu também. Somos fatos e feitos de possibilidades. É gostosa a brisa que sai das suas narinas, passa pela minha alma e pelos caminhos que separam os poros. Com janelas ou não, a vida continua serena. A diferença entre ter e ser é que eles se completam. Somos como parasitas um do outro. E essa dependência reflete a nossa condição. O amor talvez seja um acordo. Concordamos que enquanto nos amarmos estaremos juntos, donos dos mesmos direitos, e assim seremos. Seríamos infelizes se não compartilhássemos das mesmas neuroses. Se me ama me diga quando eu perguntar e não me negue uma só vez. Senão a criança que existe em mim nunca mais vai acreditar em você. Não importam os abraços e os beijos, as cartas e as canções. Se eu morresse você choraria? Às vezes eu queria morrer só para ver o quanto você me ama. Eu sei que é infantil, mas e daí? A verdade é que o amor é feito de um pouco de medo. Se não tememos mais é porque ficamos indiferentes. Como será daqui a vinte anos? Não quero nem pensar. Lábios murchos e curvas deformadas pelo tempo são flagelos que me surram a mente. E enquanto durmo uma dúzia de pesadelos me lembram de que sou mortal. Porque a vida é tão pequena, meu amor? Eu sei que você não sabe a resposta, mas talvez ela nem seja tão pequena assim. Acho que nós é que somos grandes demais. E amar pode nos trazer o medo de não ter fé em algo. Vamos orar pelas nossas vidas, rezar por cada momento e acender velas no jantar religiosamente. Não me faça me sentir ridículo. Contigo choro e com os outros por vezes sou tão frio. Já passei da casa dos vinte e ainda não me sinto maduro o bastante. Eu te disse para ser paciente e entender as minhas inconstâncias. Fique calmo! Minhas crises não passam de um dia, e minhas dores são resetadas pela alegria da paixão. Não me dê presentes, porque os tecidos desbotam e não possuem o mesmo charme que um papel mofado no fundo da gaveta. Ao passo que me levo a uma reflexão mais profunda percebo que não temos muito a ver. Você é um grego e eu sou um troiano. Mas o romance mais famoso da história foi construído por dois jovens de famílias rivais não é? Então me deite ao seu lado e ponha os olhos nos meus com seriedade. Sorrisos são bem vindos ao fim desse momento. Piadas ao fim da noite. Apenas me diga o que preciso ouvir. Algo que por mais que não tenha saco para dizer e que ache besteira, eu faço questão. Não prove agora da minha pele salgada e nem adoce os lábios nos meus. Seja poético uma vez na vida. Passe a mão pelo meu corpo com os dedos nervosos de quem escreve uma canção. Meça as palavras para que não saiam relapsas. E mate as minhas incertezas com suas confissões. Não consigo viver um dia após o outro e esperar pela vez em que nos daremos conta de que não conversamos. Estamos juntos por um acordo e não estabelecemos a data de quando ele vence. Então me diga. Fale pouco, mas fale o que preciso ouvir. Porque não sei se amanhã vou planejar um passeio, uma viagem ou uma vida contigo. O mundo é vago quando estamos confusos. Me ponha na órbita dos meus sentimentos. E quando tudo estiver em equilíbrio. Me beije, me abrace, me ame.

Sobre a dor

Não consegui te ver e deixei para amanhã. Mas e agora quanto tempo devo esperar para ele chegar? Nunca acreditei que existisse um dia que não afetasse a minha idade. E é nele em que você se encontra agora. São tristes os olhos dos homens que não podem cuidar daqueles que carecem sobre os cômodos dos deuses. Hoje é primavera e nenhuma flor me enche a vista. Éramos felizes enquanto podíamos correr pelas terras dos que regem os nossos destinos sem sermos notados. Eu estava cansado por não termos onde ficar. Me revoltava ver meninos e meninas se lambendo nas ruas e desrespeitando senhoras, enquanto nós dois só queríamos dar as mãos. O mundo é injusto sim, e não tivemos sorte. A sociedade é como um homem velho que não se deixa contestar os seus conceitos defasados. Eu era parte dessa cegueira até que você me abriu os olhos. E me fez aceitar a condição da minha essência, com grosseira nos teus doces ideais. O acaso chegou e nós vivemos pouco. Sempre falei que sua distração te levaria a morte. Mas agora é tarde. Te vi partindo e nem pude te dar um beijo de despedida. A vida é triste agora e eu estou arrependido. Por ter negado abraços ao ar livre e a séria conversa com os nossos pais. Mas o problema é que eu tinha medo. Se ao menos todos aqueles que nos julgam conhecessem os nossos corações e as nossas mentes. E soubessem que amamos que choramos e que estamos assustados. Correndo pelas ruas sem rumo. Lutando para encontrar um lugar onde possamos ser acolhidos. Saberiam que somos apenas garotos.

Sobre o acaso

Você está certo quando diz que não consigo dormir sem ouvir o barulho do ventilador. Mas o silêncio me assusta. Parece besteira, espero que entenda. Feche a janela e as portas. Tenho medo do que pode vir à noite por dentro da ventania. A fumaça e o barulho das balas que mordem os pecadores. Deixe toda a maldade do mundo lá fora e aqui dentro estaremos protegidos. É claro que não sou uma criança. Minha inocência se perdeu há muito antes do meu corpo dar o primeiro suspiro da puberdade. Mas agora nesse lugar tudo é tão doce, o colchão é tão macio. E os seus braços que me confortam de nada me lembram os outros que me envolveram as costas. É incrível como o coração tem o poder de esquecer aquilo que um dia foi presente. Porém disso não tenho medo. O momento é agora. Estamos juntos e o meu celular está desligado. Não interessa quem me ligue. Hoje não tenho família, nem casa, nem destino. O meu mundo é aqui nesse quarto. Não me importa o que somos ou quem somos, o que importa são as horas que pagamos. E quando o dia amanhecer, e sairmos sob a última sombra da noite, quero andar ao seu lado. Anote o meu número e me ligue antes da minha saída noturna. Se eu pudesse me aposentar antes de murchar a minha juventude, faria isso agora. E venderia esse carro para te roubar das esquinas. Eu não ligo para as notas. Seria egoísmo meu cobrar por nem que seja um metro a alguém que me levou as estrelas. Talvez adeus, ou até logo, ou, por favor, meu bom Deus, até as 9:30... Quando eu passar pelos faróis e bater os olhos nos teus novamente.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Sobre o tempo

Eram poucas as certezas que eu tinha. Naquele tempo eu não precisava pensar. Porque se eu divagasse, algum outro tomaria o meu lugar... Na minha vida noturna, nos corações das meninas, nos ombros dos meus companheiros. Eu era um misto de solidão e festa, de melancolia e insensibilidade. E a vida era tão fácil. Nunca dizia adeus, cantava músicas e dançava no chuveiro sem parecer ridículo. Ah tempos bons... Há tempos? Talvez eu não veja. Os olhos caíram assim como a carne que samba quando eu caminho. Antes era tudo tão doce. E agora a vida parece ser mais amarga. Os dias soam como meras rotinas sucessivas. E lá pelos vinte anos eu contava semanas, vivia em função das horas, dos segundos para poder correr por aí. Fugir da aula e agarrar uma garrafa de cerveja, passear com ela e acordar com meia dúzia de rapazes que a veneravam. Passado triste. Só triste porque lembro agora. E bebo em casa na penumbra que oscila entre a morte no meu olhar e o cansaço da minha voz cantando Chico. “Eis o malandro na praça outra vez...” Mas dessa vez caído num canto, sem mocinhas fotografando a minha ressaca e rindo da minha estupidez. O pior agora é que quando eu digo: “Garçom, me dá mais uma!” Ele não sorri pra mim. Porque os sorrisos estão para os jovens que pedem bebida na mesa ao lado. E não para o tempo que passou.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

A verdade sobre o amor

A verdade? Que verdade? O amor é feito de perguntas. A gente desapega dos delírios do prazer e se entrega aos sentimentos. É a alma negando a carne. E a carne escolhendo alguém. Parece complicado né? Pois então baby, deixe que eu te explique. Senta aqui do meu lado e se sentir o mesmo que eu, vai aprender rapidinho. O amor é assim. É como levar um choque...Que só você me dá enquanto todas as outras pessoas são como fios desligados. E o amor, querido? Descobriu? Não é tão fácil assim. Não é como ler um livro e tirar conclusões. Para entender o amor é preciso ler as mesmas coisas todos os dias. E se tiver a mesma sensação de prazer, se não se entediar com as mesmas palavras. Então você ama. E não me diga que existe verdade no amor. Ele é confuso e filosófico. Quando você está perto de entender, algo te mostra que você não entendeu nada. É como ouvir uma música em outro idioma. Ela é linda. E é isso que interessa, mesmo que você não entenda o que ela quer dizer. Ela pode marcar uma fase da vida ou pode ser a trilha sonora dela. Pode fazer você ver o quão ruim era o seu gosto quando a ouviu e amou. Ou pode jamais envelhecer. E mesmo que todos a achem velha e ridícula. Você vai continuar amando. O amor não está nas verdades, mas nas indagações. Se você não tem resposta para nenhuma pergunta e tudo o que tem a responder é “porque sim”. Então encontrou a essência. E isso já basta.